domingo, 2 de outubro de 2011

Material em processo: Caminho III

O PORÃO
Felipe Moratori

Toda casa guarda um porão, asilo dos sentimentos inconfessos, onde se depositam as angústias, onde o corpo evita entrar. O porão, com suas paredes de um lado só, é túmulo que se pode visitar.

De todos os presentes do passado o menino vai guardar as figurinhas. Não o álbum. Não as figurinhas premiadas. Manterá guardadas as figurinhas repetidas que não vai conseguir trocar. Os espaços dentro dele se comprimirão cada vez que ele pensar em sumir com as tais figurinhas que jamais serão trocadas. O menino passará a vida abraçado à crença de que todas as suas relações necessitarão de figurinhas para serem trocadas. Absorverá que todas as relações são estabelecidas por trocas. Perceberá cedo que, aos poucos, não haveria com quem trocar. O menino se amaldiçoará por não conseguir ser afetado por quem não tem objetos de troca. O menino vai esquecer o que desenhava cada figurinha. Vai procurar um lugar para abandoná-las. O menino vai se sentir absolutamente impotente com o álbum premiado. O menino se amaldiçoará num tempo em que maldições serão pouco malditas. O menino vai doar tudo o que tem. O menino vai doer. O meninovámeni.
***

Nasceu no porão. Os lobos de estimação conferiram, com seus focinhos úmidos, se o recém-nascido veio com todos os seus dedinhos. Quase canina, a mãe procurava reconhecer o próprio rosto no reflexo do lodo sobre o chão, o que só era possível nas poucas vezes que a porta acima se abria, trazendo presentes iluminados para a criança. Naquela casa de lobos, as mães precisavam de rostos bem definidos, pois todos os filhos tinham grande dificuldade em reconhecer as expressões das faces.
Fraca e canina, a mãe sorriu pro filho enquanto ela própria ascendia à porta do porão. Ela finalmente se afastava do chão, erguida pela pilha de presentes que se acumularam em todo aquele espaço vazio.
Nenhum dedo faltava no menino.
***

A menina terminou de arrumar os cabelos. Vestido, meias, sapatinho, luvas, bijus e bolsa. Estava pronta para descer ao porão. Para aquela menina, o porão era um lugar de fazer pedidos.
O cômodo dos pedidos estava cheio de sons. Aquela menina tinha bons ouvidos. A terra além das paredes de um lado só era fértil, mas sua fluidez era silenciosa. Do lado interior, a menina de bons ouvidos ainda não intuía a fertilidade externa.
Da mãe ela pediu visitas. Do pai, os olhos...
Ao se voltar para as escadas, a menina encontrou um embrulho. Dentro dele, pequenos pedaços de papel em branco. A menina chorou por entender que algo além daquelas paredes havia nascido. Lembrou-se de um ditado de avó:
Se nasceu, havia amor. Sem amor não nasce.

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