O SÓTÃO
Felipe Moratori
Toda casa guarda um sótão, refúgio da solidão, onde estão os objetos encaixotados, as lembranças estagnadas, mas também os sonhos. É no sótão o contato com os múltiplos céus...
Uma das janelas batia, indicando que a casa respirava o seu renascimento. Do andar superior, era possível ouvir o vento pelos corredores abaixo do assoalho, uma brisa íntima, abrindo os espaços interiores do lar recém-nascido. Completamente vazia, a casa chorava uma dor material: que tenciona, torce e expande. Dor de carne e carcaça, que só existe em corpos. Vivos.
Mais por mal pisado que por bem cuidado, o assoalho do sótão era conservado. Durou abaixo de muitas caixas, que projetaram, na ausência, labirintos de pó acumulado no tempo de uma geração.
Decerto, o que trazia a sutileza de uma lembrança para aquele sótão era a solidez de uma escura terra em pequenas massas quase vivas, que fazia contraste com a esbranquiçada poeira aérea e morta, ali acumulada. Era terra de jardim.
Quem levou terra para o sótão, talvez quisesse oferecê-la para o céu. Mas é essa a armadilha de um sótão: desenhar docilidades de um sonho para o real, fazendo flutuar as mais pesadas verdades e melancolias.
Vistos de um sótão, os céus são múltiplos. É assim que aqueles, uma vez dentro de um sótão, perdem-se do chão.
***
Um menino estranho. Gostava de flor. Certa vez ganhou, sabe-se lá de quem, um vaso de violetas. Não tinha mãe que o ensinasse a cuidar de flores. Por oblíqua intuição, trocava todos os dias a terra da pobre planta.
Era inverno. Tempo em que a terra tem força para o íntimo. Só deveria revirá-la na primavera, a fim de que a energia da flor se renovasse.
Inevitavelmente, a planta morreu, levando um pouco da vida do menino...
Sobrou a terra do inverno, com sua força para o íntimo. O menino subiu com o vaso da planta morta para o sótão e dormiu ao lado dos restos secos, debaixo de uma janela que sempre batia. Passou a ser, naquele instante, o elemento mais interessante para receber a atenção dos céus.
***
O vício da casa eram as janelas do sótão batendo. Adubo para os pesadelos do menino. De dia, o sótão era o refúgio da solidão daquele menino único brincando de irmão imaginário. Após uma tarde inteira de jogos de perder, o irmão, que, de inventado, era o mais legal, acabou mostrando ao menino único uma forma esperta de silenciar aquela janela do pesadelo: era só fechar a porta do cômodo, que o vento logo desistia de incomodar. Assim foram eles fechar a porta no fim do dia brincado, garantindo a noite sem voz de janela...
A expectativa de um sono tranquilo até veio. Mas de súbito foi quebrada por uma longa agonia: o menino único despertou culpado. A casa lamentava a falta de ar. Quis acordar o irmão imaginário, mas ele estava disfarçado de travesseiro. O menino único estava sozinho com a terrível missão de abrir a porta do sótão na madrugada...
Atravessou os corredores infinitos, subiu as escadas e estava ali, diante da porta. Nunca imaginou abrir o sótão àquela hora. A janela do pesadelo estaria ali, na sua frente. Podia descer correndo, mas, e se rolasse as escadas? Não podia ser covarde. Não podia deixar a casa morrer sufocada.
Chegou no último degrau, esticou o corpo até encontrar a maçaneta e girou-a até sentir o vento...
Acendeu as luzes. O Sótão estava ali, sem pesadelos, aconchegante, como no dia. O ar entrava e a janela não batia. No fundo do cômodo estava o irmão imaginário com um monte de terra do jardim na mão, estranho amuleto que protegia a ambos de flutuar naquele espaço de sonho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário