Blog criado pelos alunos do 3º Curso de Teatro do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas - MÓDULO AVANÇADO - oferecido pela FUNALFA; onde registraremos nossas pesquisas e compartilharemos dos trabalhos realizados. Por isso o nome "Epicentro", pois, aqui esta o nosso.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Material em processo: Caminho III
O PORÃO
Felipe Moratori
Toda casa guarda um porão, asilo dos sentimentos inconfessos, onde se depositam as angústias, onde o corpo evita entrar. O porão, com suas paredes de um lado só, é túmulo que se pode visitar.
De todos os presentes do passado o menino vai guardar as figurinhas. Não o álbum. Não as figurinhas premiadas. Manterá guardadas as figurinhas repetidas que não vai conseguir trocar. Os espaços dentro dele se comprimirão cada vez que ele pensar em sumir com as tais figurinhas que jamais serão trocadas. O menino passará a vida abraçado à crença de que todas as suas relações necessitarão de figurinhas para serem trocadas. Absorverá que todas as relações são estabelecidas por trocas. Perceberá cedo que, aos poucos, não haveria com quem trocar. O menino se amaldiçoará por não conseguir ser afetado por quem não tem objetos de troca. O menino vai esquecer o que desenhava cada figurinha. Vai procurar um lugar para abandoná-las. O menino vai se sentir absolutamente impotente com o álbum premiado. O menino se amaldiçoará num tempo em que maldições serão pouco malditas. O menino vai doar tudo o que tem. O menino vai doer. O meninovámeni.
***
Nasceu no porão. Os lobos de estimação conferiram, com seus focinhos úmidos, se o recém-nascido veio com todos os seus dedinhos. Quase canina, a mãe procurava reconhecer o próprio rosto no reflexo do lodo sobre o chão, o que só era possível nas poucas vezes que a porta acima se abria, trazendo presentes iluminados para a criança. Naquela casa de lobos, as mães precisavam de rostos bem definidos, pois todos os filhos tinham grande dificuldade em reconhecer as expressões das faces.
Fraca e canina, a mãe sorriu pro filho enquanto ela própria ascendia à porta do porão. Ela finalmente se afastava do chão, erguida pela pilha de presentes que se acumularam em todo aquele espaço vazio.
Nenhum dedo faltava no menino.
***
A menina terminou de arrumar os cabelos. Vestido, meias, sapatinho, luvas, bijus e bolsa. Estava pronta para descer ao porão. Para aquela menina, o porão era um lugar de fazer pedidos.
O cômodo dos pedidos estava cheio de sons. Aquela menina tinha bons ouvidos. A terra além das paredes de um lado só era fértil, mas sua fluidez era silenciosa. Do lado interior, a menina de bons ouvidos ainda não intuía a fertilidade externa.
Da mãe ela pediu visitas. Do pai, os olhos...
Ao se voltar para as escadas, a menina encontrou um embrulho. Dentro dele, pequenos pedaços de papel em branco. A menina chorou por entender que algo além daquelas paredes havia nascido. Lembrou-se de um ditado de avó:
Se nasceu, havia amor. Sem amor não nasce.
Material em processo: Caminho II
OS CORREDORES INFINITOS
Felipe Moratori
Toda casa guarda corredores infinitos, onde as relações que não se estabelecem se tornam visíveis diante de um devir, seja ele de encontro ou de travessia. São nos corredores que se penduram as faces.
O que se arrastou por toda a casa estava no assoalho debaixo da cama, criando, em casulos viscosos, os primeiros conflitos de uma menina.
Se escolhesse caminho, ela teria que trabalhar a sua calma diante do medo. Caminho é passagem garantida, mas longa. Teria que enfrentar a força que a pressionava para dentro, diminuindo seu corpo descorado e fracote abaixo da camisola. Solução heroica seria esticar os membros, ganhando espaço em si, para andar e crescer. Escolher caminho é nobre. Caminho é palavra de primeiras pessoas. Filha que usa dessas palavras é orgulho de família.
Se, pelo contrário, ela escolhesse travessia, ganharia crédito nos relógios. Travessia é passagem curta, porém incerta. Travessia tem risco de queda e atropelamento, é caminho cruzado. Travessia é palavra que hesitou. Filha aventureira gosta de travessias, mas leva pra sempre, como lembrança dos pais, o pouco sono que eles tinham.
— Caminho ou travessia? — A menina precisava decidir como encarar o chão do longo corredor que separava sua cama da cama do seu pai. Na infância, atravessar corredor é jornada.
***
Aquela família descendia de uma tribo que se orgulhava por sempre esperar o último membro que faltava para juntos poderem acender a fogueira do alimento e do sono. Naquele tempo de muitos relógios, nunca se podia ter certeza de quem seria o último a chegar, o que dava à brincadeira da antiga tribo uma cara moderna, com jeito de jogo e história sem fim.
O medo de que um dia alguém se perdesse, e não chegasse, era sempre varrido para debaixo do tapete, com a vassoura da confiança coletiva. É claro que ninguém jamais falava sobre essa possibilidade — Era esse o tabu que dava, à casa, um leve estado de tensão positiva.
Pela primeira vez, naquela geração, o menino mais novo se tornou o membro que faltava. Todos o consideravam o descendente mais fraco e despreparado da família. E, consultando todos os relógios daquele tempo, nenhum negava que ele já deveria estar em casa.
A princípio, ninguém ousou comentar. Todos sustentavam a postura confiante de sempre, agarrando com todas as forças a esperança de que o menino chegaria a qualquer momento. E assim o tempo passou. Dias e dias sem que o menino mais novo chegasse. Ainda que continuassem suas rotinas, como uma terrível maldição tribal, por mais que comessem e dormissem, todos os membros da família aparentavam nada comer e nada dormir.
O desespero daquela família foi se tornando insustentável, o assoalho passou a afundar sob o peso dos que ali habitavam. Já não conseguiriam mais ficar ali. O lar já não era lar. Foi assim que aquela família se mudou. Ao retirar todos os relógios pendurados nos corredores, descobriram, abaixo deles, retratos dos antepassados.
***
O corredor era um homem inseguro para as duas mulheres da casa. Aos sussurros, as faces penduradas vigiavam o assoalho, comentando entre si os movimentos de ambas naquele espaço. Aquelas eram as únicas vozes que se ouviam pelos corredores desde o tempo em que a casa ainda recebia visitas.
Um pó estrangeiro podia ser observado nas pegadas de homem sobre o chão. Uma das mulheres descobriu as pegadas seguindo para a porta dos fundos. A outra mulher se deparou com as mesmas pistas acumuladas no retorno da varanda que dava para o jardim. As faces penduradas no corredor se calaram quando viram as mulheres, numa sincronia sem pudor, debruçadas sobre o assoalho vigiado, se arrastando para seguir as tais pegadas. Foi ali, tão perto do chão, que ambas as mulheres estabeleceram um encontro que a casa já não conhecia. Casulos viscosos apareceram no ventre das mulheres que afundaram no assoalho. Ao estourar os casulos, as faces penduradas no corredor enxergaram dois corpos descorados e fracotes de mãe e filha.
Material em processo: Caminho I
O SÓTÃO
Felipe Moratori
Toda casa guarda um sótão, refúgio da solidão, onde estão os objetos encaixotados, as lembranças estagnadas, mas também os sonhos. É no sótão o contato com os múltiplos céus...
Uma das janelas batia, indicando que a casa respirava o seu renascimento. Do andar superior, era possível ouvir o vento pelos corredores abaixo do assoalho, uma brisa íntima, abrindo os espaços interiores do lar recém-nascido. Completamente vazia, a casa chorava uma dor material: que tenciona, torce e expande. Dor de carne e carcaça, que só existe em corpos. Vivos.
Mais por mal pisado que por bem cuidado, o assoalho do sótão era conservado. Durou abaixo de muitas caixas, que projetaram, na ausência, labirintos de pó acumulado no tempo de uma geração.
Decerto, o que trazia a sutileza de uma lembrança para aquele sótão era a solidez de uma escura terra em pequenas massas quase vivas, que fazia contraste com a esbranquiçada poeira aérea e morta, ali acumulada. Era terra de jardim.
Quem levou terra para o sótão, talvez quisesse oferecê-la para o céu. Mas é essa a armadilha de um sótão: desenhar docilidades de um sonho para o real, fazendo flutuar as mais pesadas verdades e melancolias.
Vistos de um sótão, os céus são múltiplos. É assim que aqueles, uma vez dentro de um sótão, perdem-se do chão.
***
Um menino estranho. Gostava de flor. Certa vez ganhou, sabe-se lá de quem, um vaso de violetas. Não tinha mãe que o ensinasse a cuidar de flores. Por oblíqua intuição, trocava todos os dias a terra da pobre planta.
Era inverno. Tempo em que a terra tem força para o íntimo. Só deveria revirá-la na primavera, a fim de que a energia da flor se renovasse.
Inevitavelmente, a planta morreu, levando um pouco da vida do menino...
Sobrou a terra do inverno, com sua força para o íntimo. O menino subiu com o vaso da planta morta para o sótão e dormiu ao lado dos restos secos, debaixo de uma janela que sempre batia. Passou a ser, naquele instante, o elemento mais interessante para receber a atenção dos céus.
***
O vício da casa eram as janelas do sótão batendo. Adubo para os pesadelos do menino. De dia, o sótão era o refúgio da solidão daquele menino único brincando de irmão imaginário. Após uma tarde inteira de jogos de perder, o irmão, que, de inventado, era o mais legal, acabou mostrando ao menino único uma forma esperta de silenciar aquela janela do pesadelo: era só fechar a porta do cômodo, que o vento logo desistia de incomodar. Assim foram eles fechar a porta no fim do dia brincado, garantindo a noite sem voz de janela...
A expectativa de um sono tranquilo até veio. Mas de súbito foi quebrada por uma longa agonia: o menino único despertou culpado. A casa lamentava a falta de ar. Quis acordar o irmão imaginário, mas ele estava disfarçado de travesseiro. O menino único estava sozinho com a terrível missão de abrir a porta do sótão na madrugada...
Atravessou os corredores infinitos, subiu as escadas e estava ali, diante da porta. Nunca imaginou abrir o sótão àquela hora. A janela do pesadelo estaria ali, na sua frente. Podia descer correndo, mas, e se rolasse as escadas? Não podia ser covarde. Não podia deixar a casa morrer sufocada.
Chegou no último degrau, esticou o corpo até encontrar a maçaneta e girou-a até sentir o vento...
Acendeu as luzes. O Sótão estava ali, sem pesadelos, aconchegante, como no dia. O ar entrava e a janela não batia. No fundo do cômodo estava o irmão imaginário com um monte de terra do jardim na mão, estranho amuleto que protegia a ambos de flutuar naquele espaço de sonho.
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