domingo, 2 de outubro de 2011

Material em processo: Caminho II

OS CORREDORES INFINITOS
Felipe Moratori

Toda casa guarda corredores infinitos, onde as relações que não se estabelecem se tornam visíveis diante de um devir, seja ele de encontro ou de travessia. São nos corredores que se penduram as faces.

O que se arrastou por toda a casa estava no assoalho debaixo da cama, criando, em casulos viscosos, os primeiros conflitos de uma menina.
Se escolhesse caminho, ela teria que trabalhar a sua calma diante do medo. Caminho é passagem garantida, mas longa. Teria que enfrentar a força que a pressionava para dentro, diminuindo seu corpo descorado e fracote abaixo da camisola. Solução heroica seria esticar os membros, ganhando espaço em si, para andar e crescer. Escolher caminho é nobre. Caminho é palavra de primeiras pessoas. Filha que usa dessas palavras é orgulho de família.
Se, pelo contrário, ela escolhesse travessia, ganharia crédito nos relógios. Travessia é passagem curta, porém incerta. Travessia tem risco de queda e atropelamento, é caminho cruzado. Travessia é palavra que hesitou. Filha aventureira gosta de travessias, mas leva pra sempre, como lembrança dos pais, o pouco sono que eles tinham.
Caminho ou travessia? A menina precisava decidir como encarar o chão do longo corredor que separava sua cama da cama do seu pai. Na infância, atravessar corredor é jornada.

***

Aquela família descendia de uma tribo que se orgulhava por sempre esperar o último membro que faltava para juntos poderem acender a fogueira do alimento e do sono.  Naquele tempo de muitos relógios, nunca se podia ter certeza de quem seria o último a chegar, o que dava à brincadeira da antiga tribo uma cara moderna, com jeito de jogo e história sem fim.
O medo de que um dia alguém se perdesse, e não chegasse, era sempre varrido para debaixo do tapete, com a vassoura da confiança coletiva. É claro que ninguém jamais falava sobre essa possibilidade Era esse o tabu que dava, à casa, um leve estado de tensão positiva.
Pela primeira vez, naquela geração, o menino mais novo se tornou o membro que faltava. Todos o consideravam o descendente mais fraco e despreparado da família. E, consultando todos os relógios daquele tempo, nenhum negava que ele já deveria estar em casa.
A princípio, ninguém ousou comentar. Todos sustentavam a postura confiante de sempre, agarrando com todas as forças a esperança de que o menino chegaria a qualquer momento. E assim o tempo passou. Dias e dias sem que o menino mais novo chegasse. Ainda que continuassem suas rotinas, como uma terrível maldição tribal, por mais que comessem e dormissem, todos os membros da família aparentavam nada comer e nada dormir.
O desespero daquela família foi se tornando insustentável, o assoalho passou a afundar sob o peso dos que ali habitavam.  Já não conseguiriam mais ficar ali. O lar já não era lar. Foi assim que aquela família se mudou. Ao retirar todos os relógios pendurados nos corredores, descobriram, abaixo deles, retratos dos antepassados.
***

O corredor era um homem inseguro para as duas mulheres da casa. Aos sussurros, as faces penduradas vigiavam o assoalho, comentando entre si os movimentos de ambas naquele espaço. Aquelas eram as únicas vozes que se ouviam pelos corredores desde o tempo em que a casa ainda recebia visitas.
Um pó estrangeiro podia ser observado nas pegadas de homem sobre o chão. Uma das mulheres descobriu as pegadas seguindo para a porta dos fundos. A outra mulher se deparou com as mesmas pistas acumuladas no retorno da varanda que dava para o jardim. As faces penduradas no corredor se calaram quando viram as mulheres, numa sincronia sem pudor, debruçadas sobre o assoalho vigiado, se arrastando para seguir as tais pegadas. Foi ali, tão perto do chão, que ambas as mulheres estabeleceram um encontro que a casa já não conhecia. Casulos viscosos apareceram no ventre das mulheres que afundaram no assoalho. Ao estourar os casulos, as faces penduradas no corredor enxergaram dois corpos descorados e fracotes de mãe e filha.

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